Sair do processo de Quioto-Copenhaga
Um nome sonante, James Hansen, o “pai” dos alertas para o aquecimento global, vem a público pedir o fracasso de uma cimeira que media, políticos e muitas ONGs vêm como uma hipótese derradeira para alcançar um acordo que possa “salvar” o planeta do aquecimento global (resta saber quem se salva, pois já se assume que o aquecimento global não será inferior a 2 ºC). Afinal, todo o processo está errado na sua concepção, quer pela constante procura de compromissos, quer pela continuação do business as usual e a tentativa de alargar as fronteiras do capitalismo até à atmosfera.
Por um lado, isto atira abaixo alguns dos argumentos dos cépticos do clima, que pensam que toda a comunidade (ou comunidades?) científica está ao serviço de qualquer conspiração engendrada por qualquer supercérebro. Claro, o caso climategate tem uma vantagem, que vem muito bem descrita num recente artigo de Michael Hulme e Jerome Ravetz, um dos criadores do conceito de ciência pós-normal: é que permitiu colocar o dedo na ferida do positivismo científico que domina a nossa sociedade, da tecnocracia, das decisões baseadas em modelos complicados (diferente de complexos ou capazes de descrever a complexidade dos sistemas), que tentam descrever uma realidade complexa e indescritível no futuro (time is becoming).
Contudo, mais importante do que o caso menor que o climategate constitui para a questão climática (cujo uso me parece provir de uma extrema-direita ultra-reaccionária), é que ataca a forma como o capitalismo entrou em força pelo discurso ecológico, transformando-o a seu belprazer, contaminando-o e desvirtuando-o. Até na maioria das ONGs ambientalistas parece que já não há críticas a fazer aos mercados de carbono ou aos mecanismos de desenvolvimento limpo. Nas discussões da COP6 (Haia e Bona, onde ficaram decididos os contornos finais de Quioto) foi visível a força e lobby que fizeram – inutilmente – para que as reduções só fossem contabilizadas a nível doméstico, sem esquemas que permitam manter o status quo dos poluidores e atrasar a procura de soluções (tecnológicas ou sócio-económicas). Agora, tudo isso parece esquecido e faz-se uma batalha por números, percentagens com pouco significado. Nada a dizer sobre a atribuição de direitos de propriedade (por parte de uma elite) sobre a atmosfera que humanos e não humanos partilham desde há milhares de milhões de anos.
Geralmente, esquece-se também o mais importante: o nosso modelo de consumo é insustentável, o nosso crescimento económico não é compatível com a sustentabilidade do planeta – seja aquecimento global, seja perda de biodiversidade ou seja poluição em várias formas. Parece que hoje o ecologismo já pouco tem da 2ª lei da termodinâmica, da ecologia de Odum, dos sistemas longe do equilíbrio de Ilya Prigogine, da cibernética da vida de Robert Rosen, da bioeconomia de Georgescu-Roegen ou da economia de estado estacionário de Herman Daly. Ignoram-se também outros apelos ramificados de todas estas áreas, como o do decrescimento sustentável, defendido, entre outras, pelo economista Serge Latouche
Só resta esperar que Copenhaga possa ver um renascimento da batalha de Seattle, capaz de bloquear a cimeira de Copenhaga e de parar tanta tontaria eco-capitalista – que de fundamento científico só tira o que convém e de moral e de ética não tira nada.
De facto, espera-se uma grande mobilização activista e desobediente para Copenhaga, a ler pelas notícias da comunicação social corporativa ou pelos apelos à acção pela justiça climática por parte dos movimentos sociais. Também de Portugal saem mobilizações neste sentido, por parte de algumas activistas do GAIA.
Só a partir do ponto de bloqueio e deslegitimização destas conferências das partes, haverá a possibilidade de lançar um novo processo, longe do business as usual que caracteriza as negociações do clima nas COP e mais perto de quem pode trabalhar as alternativas: cidadãos, intelectuais, camponeses e todos aqueles que trabalham nas alternativas a um sistema inerentemente injusto, des(apropriador) e dependente de um crescimento contínuo, que não cabe nos limites de um planeta onde a entropia é lei.
Monday, 14 Dec, 2009 às 10:23 |
GUALTER! Are you in Copenhagen? I asked for you at Christiania…. Write me a mail
jalg@dr.dk
Hugs,
Jacinta