Jaime Silva: Ministro transgénico ou Ministro ignorante?

A SIC emitiu hoje uma excelente reportagem sobre transgénicos. A primeira reportagem que colocou as questões certas e tentou transmitir respostas claras de ambos os lados. Embora hajam vários aspectos a comentar na argumentação apresentada pelos vários intervenientes pró-OGM, decido, pelo menos por hoje, focar-me nas palavras com que o Ministro da Agricultura do Desenvolvimento Rural e das Pescas, Jaime Silva, nos brindou.

«Nós somos 27 estados-membros, será que estamos todos a ser manipulados?»

Certamente que não Sr. Ministro. A Áustria, a Hungria, a Polónia e a Grécia têm proibições ao cultivo de transgénicos, contra a vontade da Comissão Europeia. A Alemanha impôs uma proibição temporária ao cultivo de MON810, pelo facto de a Monsanto não ter apresentado até agora um plano de monitorização sobre o cultivo desta variedade, conforme obriga a Directiva 2001/18. Outros países como a Itália e o Chipre têm mostrado forte resistência ao cultivo de transgénicos no seu território. A França considera avançar com uma proibição ao cultivo de milho transgénico.

Não Sr. Ministro, nem todos os Ministros Europeus são marionetas da Monsanto. E talvez lhe fizesse bem aos cordelinhos perguntar ao seu colega do Ambiente, o Ministro Nunes Correia, por que razão apoiou a proibição do cultivo de milho transgénico pela Hungria.

«27 Estados-membros que têm os seus cientistas no comité cientifico permanente, não são extra-terrestres que estão lá sentados. São cientistas portugueses, ingleses, franceses e alemães… e se eles nos chumbam… por exemplo há uma variedade de arroz que foi chumbada. Não foi autorizado no espaço da União Europeia e aplicámos medidas contra a importação de arroz dos Estados-Unidos.»

Não sei a que cientistas Jaime Silva se refere, se aos do Painel OGM, se à própria EFSA. As decisões sobre as autorizações são baseadas nas recomendações do Painel OGM. O papel da Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) é emitir opiniões para a Comissão Europeia e para os Estados Membros, baseadas nas recomendações do Painel OGM. Ou seja, “eles” não chumbam nada, nem podem chumbar… quem pode chumbar alguma coisa são os Ministros, como o Jaime Silva, ou a Comissão Europeia.

Contudo, pior que isso é o Ministro desconhecer a própria estrutura das instituições europeias da sua área. O comité permanente a que o Ministro se refere, onde há representantes de todos os países, é o comité regulador da Directiva 2001/18, que não é um comité científico. Ao contrário desse comité, no painel OGM da EFSA os cientistas não representam os países e nem sequer há cientistas de todos os países – Portugal, por exemplo, não tem lá nenhum cientista.

E sobre as votações do arroz transgénico? Terá de facto sido chumbada alguma variedade de arroz? Não, também aqui o Ministro mente, ou por ignorância, ou para nos enganar. Nunca houve nenhuma votação sobre qualquer variedade de arroz transgénico na União Europeia e como tal, nunca houve nenhum chumbo.

Quanto às medidas contra a importação de arroz, mal seria se não se aplicassem medidas contra a importação de variedades que não são autorizadas na União Europeia, ainda que o agro-negócio, os Estados Unidos e a Organização Mundial do Comércio vejam isso como uma afronta ao comércio livre global. No caso do arroz transgénico LL601, as medidas justificaram-se pelo aparecimento de arroz transgénico em latas comercializadas nos Estados Unidos. Um mês mais tarde, foi encontrado arroz transgénico Bt63 em massas chinesas no mercado alemão.

«Portugal, juntamente com a Alemanha, foram os primeiros dois Estados-membros a fixar regras. Só há 7 estados membros que têm regras. Isto significa uma coisa muito simples: que os outros 20 estados-membros, qualquer agricultor pode produzir os OGM autorizados de qualquer maneira.»

Aqui, mais uma falácia, onde Jaime Silva ignora os países que têm batalhado (este é o termo adequado) com a Comissão Europeia para impedir o cultivo de transgénicos. Já os referi acima. Outros há que não têm transgénicos pela simples razão de que o clima do seu território não permite o cultivo de milho. O MON810 só é adequado para cultivo nos países do Sul da Europa, pelo que países como o Reino Unido ou os países escandinavos não têm nenhuma pressa em regulamentar.

Segundo dados oficiais da indústria, em 2006 só houve cultivo de milho transgénico em 7 dos 27 países da União Europeia. Países como a Alemanha, apesar de não terem regras específicas para a coexistência (ao contrário do que diz o Ministro!), têm uma lei geral muito mais abrangente que a nossa e que efectivamente atribui responsabilidades quando alguma coisa correr mal.

No meio de tamanhos enganos, o Ministro ainda conseguiu dizer uma boa verdade, ainda que abone contra o seu discurso apologista MonsantoTM. Ao falar sobre a BSE, afirmou que «a ciência também tem por trás interesses económicos. Os políticos na altura não foram suficientemente cautelosos, não adoptaram medidas de precaução».

Pois, não aplicaram e viu-se no que deu. Só no Reino Unido os custos da BSE foram estimados em mais de 6500 milhões de euros.

Mas será que relativamente aos OGM não há interesses económicos? Ora, façamos um pequeno exercício de comparação. Que interesses económicos estavam por detrás das rações com cadáveres, que resultaram nas vacas loucas? A indústria das rações, certamente, que viu na “reciclagem” de animais mortos uma excelente oportunidade para poupar uns trocos com proteína barata. Não querendo perder a sua galinha dos ovos de ouro, fez lobby junto das instituições governamentais de vários países, para que não proibissem a importação das suas rações contaminadas, permitindo que a contaminação se alastrasse com efeitos sócio-económicos catastróficos.

E do lado dos OGM, quem temos?

  1. Monsanto, a maior empresa de agro-biotecnologia e a segunda maior empresa de sementes do mundo, com vendas a ascender a 1700 milhões de dólares. Curiosamente, é também uma das maiores empresas do sector agro-química e detentora da patente do herbicida Roundup. Será coincidência que 75% dos transgénicos cultivados em todo o mundo são Roundup Ready, resistindo ao herbicida mais vendido do mundo?
  2. Syngenta, a maior empresa do agronegócio do mundo. Originou-se a partir da Novartis, a maior farmacêutica do mundo e da AstraZeneca. As vendas ascendem a mais de 6 mil milhões de dólares.
  3. Pioneer Hi-Bred, a maior empresa de sementes do mundo, adquirida em 1999 pela DuPont, a segunda maior empresa de químicos do mundo. As vendas de sementes ascendem a mais de 1900 milhões de dólares.
  4. Bayer CropScience, uma bem conhecida produtura de químicos e farmacêuticos. As vendas nos sectores da saúde, agricultura, químicos e polímeros ascendem a mais de 25 milhões de euros.
  5. Advanta, uma joint venture da AstraZeneca, uma das maiores farmacêuticas/químicas e a empresa de sementes VanderHave. Tem rendimentos anuais superiores a 400 milhões de euros.

De facto, não há razão para alarme. Desta vez os interesses económicos não são, de facto, um problema… mas só porque são tão fortes que nem Estados, nem Comissão Europeia são capazes de lhes fazer frente…

O Ministro afirma ainda que «o passado diz-nos que não devemos temer o futuro», revelando o seu positivismo tecnocrata ao mais alto nível. Eu da minha parte, não tenho medo do futuro, Sr. Ministro. O único medo que tenho é de políticos que defendem que a sociedade deve estar ao serviço da ciência e não a ciência ao serviço da sociedade. De políticos que dizem que a agricultura deve pertencer a meia dúzia de multinacionais e não aos agricultores. E, sobretudo, de um Ministro que, capataz do agro-negócio, se assume como o carrasco da agricultura e do meio rural português.

Jaime Silva, o carrasco ao serviço das multinacionais

13 Respostas a “Jaime Silva: Ministro transgénico ou Ministro ignorante?”

  1. Octávio Lima diz:

    Aposto que, pela substância, frontalidade e clareza de ideias este artigo vai fazer mossa.

  2. Jaime Silva diz:

    O video da reportagem está online em http://eufemia.ecobytes.net/2007/10/01/sic-reportagem-especial-transgenicos/

  3. Skynet diz:

    Quanto a estes pormenores todos que referiu no post, não estou dentro do assunto, por isso não posso falar sobre eles.

    Não concordo que se misture BSE com transgénicos, pode até servir de comparação para exemplificar que existem empresas sem escrúpulos, e que a ciência erra e não é perfeita. Mas em termos científicos a BSE e os transgénicos não têm nada a ver.

    Concordo no entanto que a produção de transgénicos e a sua fiscalização não devem estar exclusivamente na mão das empresas. Pois estas têm como objectivo fazer dinheiro, e a ética não é exactamente a sua primeira prioridade. E dito isto, não é a tecnologia dos transgénicos que é má, o que pode ser mau, é o uso que se faz dela.

  4. Gualter diz:

    Skynet:

    É certo que cientificamente a BSE não tem nada a ver com transgénicos. Um prião, que resulta de uma proteína com a geometria modificada não tem nada a ver com transgénicos, que são o resultado do processo de inserção de um pedaço de genoma de outra espécie pelo processo de engenharia genética. No entanto, de uma perspectiva de história da ciência tem muito a ver, ao constituir mais um exemplo de como a ciência nem sempre traz respostas adequadas, sobretudo porque assenta em dogmas do conhecimento que só mais tarde acabam por ser postos em causa.
    Quando nos anos 60 Alper e Griffith descobriram os priões foram alvo de fortes críticas, pois não se encaixava no “dogma” central da biologia molecular criado por Watson e Crick da codificação DNA->RNA->proteína. Só em 1970 Crick reviu a sua teoria, para acomodar este tipo de alterações da estrutura proteica (e consequentemente da sua função).

    Dito isto, obviamente que não é a engenharia genética que é má, o que pode ser mau é o uso que se faz dela. A investigação pode ter muitas virtudes, mas a libertação de uma tecnologia incerta num ambiente desconhecido (isto é, a utilização da engenharia genética na agricultura) pode ter efeitos cuja dimensão os melhores modelos e hipóteses da ciência não podem calcular.

  5. GM diz:

    O Ministro é um espertalhote. Quando diz que todos os países autorizam transgénicos sabe que é mentira: ainda no ultimo Conselho da Agricultura em Bruxelas os Ministros não autorizaram 3 novos tipos de milho transgénico. Só que nele , claro votou a favor.
    Além disto, como é dito no artigo , muitos Estados membros , declaram-se zonas livres de OGM , numa expressão de soberania nacional, contra as multinacionais.
    Esses países têm agencias cientificas nacionais. O Ministro pediu parecer a alguma agencia cientifica nacional , para averiguar os riscos das culturas na agricultura portuguesa?? Claro que não. Enfim, um espertalhote.
    O que é interessante saber é se esta política do Ministro espertalhote é apoiada por membros do governo com memória ambientalista e pelo PS de António Campos e Capoulas que detinham uma visão contrária.

  6. Capoulas Santos diz:

    O agora deputado europeu socialista Capoulas Santos pronunciou-se sobre transgénicos no programa da RTP “Eurodeputados” que está online em :

    http://eufemia.ecobytes.net/2007/09/21/eurodeputados/

  7. GM diz:

    O Ministro devia responder às seguintes questões:

    1.Existe algum parecer científico sobre o impacto ambiental e para a saúde humana da utilização de milho, colza e soja transgénicos para as condições de Portugal?

    2.Existe algum estudo de opinião que demonstra que os agricultores portugueses são a favor dos transgénicos?

    3.Existe algum estudo económico que demonstre os benefícios para o consumidor português do uso de transgénicos?

    4.Existe algum estudo de opinião que mostre a posição dos consumidores portugueses relativamente aos transgénicos?

    5.Qual seriam as vantagens e os inconvenientes de Portugal (inteiro ou algumas regiões) se declararem livres de transgénicos , à semelhança de outros países europeus?

    Isto sim seria informação séria e não esperteza politiqueira.

  8. Erdna diz:

    Muito bom artigo. Bastante esclarecedor. Considero imperativo que esta informação, que tenta ser omitida, seja espalhada, para que haja um número maior de pessoas a interessarem-se por esta matéria que é tão importante nos nossos dias.

  9. vaca loca diz:

    Famoso! Acho que este blog e os artigos bem pesquisados vão ajudar a maioria das pessoas a perceber, que nós proprios temos de agir agora e não esperar mais em frente da televisão, ouvindo nas palavras manipulativas.
    Muito obrigado para tanto pesquisa e trabalho!
    Vou divulgar este artigo em todo lado!

  10. armandinho diz:

    A verdade dos factos:

    ” A semana passada os Ministros da Agricultura da União Europeia não conseguiram chegar a acordo para aprovar três novo tipos de milho geneticamente modificados Esta decisão foi tomada apesar das ameaças da indústria de que seria dificil abastecer o mercado europeu com milho da América do Norte e do Sul se os produtos transgénicos não fossem autorizados.”

    in European food law

  11. Gualter diz:

    armandinho:

    Não chegarem a acordo, não implica que tenham chumbado essas variedades. Conforme escrevi no post anterior, não houve maioria qualificada nessa votação, à semelhança do que tem acontecido com outras votações. Isso acontece precisamente porque há uma divisão entre os países da UE no que diz respeito à aceitação dos transgénicos.
    Não tendo atingido a maioria qualificada na votação em Conselho de Ministros, a decisão passa agora para a Comissão Europeia. Nas próximas semanas veremos o resultado desta decisão, mas é mais que provável a aprovação destas variedades transgénicas pela Comissão.

  12. inGENEa » Blog Archive » A FAO, o produtivismo e os agrocombustíveis para o meu automóvel - parte I diz:

    [...] manobra do crescente complexo agro-industrial e energético, formado por empresas tais como a Monsanto, a DuPont-Pioneer, a Bayer, a Syngenta e a BP. É também importante notar que alguns dos principais mercados especulativos são os da [...]

  13. António Abreu diz:

    O Ministro da Agricultura já deu provas suficientes para ser afastado.
    Ainda bem que o Primeiro Ministro o fez aceitar um Secretário de Estado que tem bom senso e já mostrou trabalho por onde passou. Arscénsio Simões foi um dos melhores governantes que passou pelos fogos e é bem melhor que J. Silva.
    AA