Risco, incerteza e ignorância – a ciência sem respostas Friday, 31 Aug, 2007
«Os OGM poderiam comparar-se com a tecnologia nuclear quanto à sua aplicação para fins pacÃficos, ainda que os seus riscos tenham demonstrado ser reais e possam revelar-se mortÃferos para a humanidade e a biosfera»
Painel de Peritos Eminentes da FAO sobre Ética, Alimentação e Agricultura, relatório “Questões éticas na alimentação e na agricultura”, Setembro de 2000
Ainda que pensemos que a ciência nos pode trazer respostas e eliminar os problemas associados à libertação de OGM no ambiente, a história recente da indústria agro-quÃmica deve deixar-nos cautelosos. Exemplos incluem o DDT, usado de forma extensiva como pesticida, em casa ou nos campos; os PCB, usados como isolantes eléctricos ou plastificantes em aplicações industriais; ou os CFC, gases inertes utilizado para refrigeração ou propulsão de aerossóis. Todos eles foram considerados seguros durante décadas, à luz dos estudos cientÃficos da época, até se verificar que estavam a provocar problemas muito graves no ambiente e na saúde humana. No caso dos PCB, a própria Monsanto (maior empresa de biotecnologia do mundo e também a maior fabricante de PCB) negou a existência de efeitos sobre a saúde humana até 1972, apesar de já ter observado nos anos 30 problemas na saúde dos seus funcionários.
A utilização de OGM na agricultura é, nada mais, nada menos, do que a libertação nos ecossistemas de organismos com interacções de genes de espécies que nunca se cruzariam pela evolução natural. Destes ecossistemas, a ciência apenas conhece uma Ãnfima parte das dinâmicas que os regem e não é capaz de prever ou modelar que efeitos podem ter as interacções entre novos genes e novas proteÃnas, num meio que desconhecemos e que nada tem a ver com o laboratório de testes ou mesmo com o campo do vizinho.
Por outro lado, a lógica de investigação na engenharia genética aplicada à agricultura está invertida. A comprovação é posterior à colocação em prática, a produção precede a investigação e «a ciência planeia cega por cima das fronteiras dos perigos†[2]. No fundo, estamos todos a ser cobaias de uma experiência cientÃfica à escala global.
A resposta aos transgénicos não deve ser dada pela ciência, mas sim pela comunidade de produtores e consumidores, que devem ter o direito a fazer a sua opção. Isso é, aliás, o que propõe a ciência pós-normal [3] ou as novas metodologias de participação desenvolvidas em várias áreas da ciência e da polÃtica. A única forma de resolver de forma adequada um problema complexo, onde a ciência dá mais incertezas do que respostas, é envolver comunidades de pares alargadas, isto é, envolver na discussão e decisão sobre o assunto, todos aqueles que têm algo a ver com o tema – no caso dos OGM isso implica envolver todos os cidadãos no debate.
A opinião dominante neste momento é de rejeitar os transgénicos, o que, face a uma coexistência impossÃvel, a uma ciência ignorante e à existência do princÃpio da precaução, deveria conduzir o poder polÃtico a considerar esta tecnologia irrelevante e a legislar no sentido de uma proibição do cultivo e comercialização de OGM.
