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Moçambique: o povo cospe no banquete colonial Thursday, 02 Sep, 2010

Comecei o dia com as notícias sobre os motins em Moçambique. Como de costume, as várias peças jornalísticas que fui encontrando apenas destacavam os confrontos, violência, contagens de mortos e feridos. As peças deram-me também a conhecer as informativas declarações de representantes do ilustríssimo Governo de Moçambique, que indicavam que perigosos vândalos se haviam posto em acção na cidade e que a polícia estaria lá para defender o povo. É que os vândalos protestavam contra a subida de preços de bens tão supérfluos nos tempos modernos, tais como a água, energia, pão e transportes públicos.

Ainda entusiasmado com as análises da minha tese de doutoramento sobre conflitos ambientais (pois é, está entregue, e por isso já sobra tempo para aqui escrever!), decidi navegar pela blogosfera à procura de pistas que ajudassem a encontrar as causas mais profundas de uma subida de preços que conduziu a tal tumulto. Ainda que interessantes, apenas encontrei postas sobre a atmosfera política ou cronologias dos eventos. O que eu queria saber não estava lá.

Comecei por pesquisar a questão da água. Não encontrei muito, mas talvez seja relevante referir que desde 1995 que se iniciou a privatização da gestão da água em Maputo e eventualmente noutras áreas. A lógica de gestão privada, como é sabido,  estabelece preços com base na oferta e na procura (ainda que a regulação, nos raros ou inexistentes casos em que funciona convenientemente e independente de interesses, possa interferir). Se há menos água e mais consumo (ah, pois, os refugiados ambientais que vêm dos meios rurais em decadência com a modernização agrícola… mas já aí vamos), os preços da água aumentam. Acrescentemos a esta brilhante opção de economia política de um bem supérfluo como a água, o aquecimento global. Esse que nos traz o aumento da frequência de fenómenos climáticos extremos, tais como os episódios de seca.

Passei à questão energética, onde o nome Cahora Bassa me ressoava nos ouvidos. A barragem de Cahora Bassa, que atingiu recordes de produção este ano, foi “entregue” há pouco tempo nas mãos do estado moçambicano. Contudo, as passagens de testemunho têm um preço, o qual dificilmente se paga sem o recurso ao crédito. Como os «compromissos junto dos financiadores da sua reversão para o Estado moçambicano» são mais importantes do que o consumo supérfluo de electricidade pelas camadas sociais mais empobrecidas, o preço da energia eléctrica tem que subir. Afinal, são os mesmos que continuam a pagar as megalomanias do imperialismo português. Este, infelizmente, teima em morrer mesmo depois de uma suposta descolonização. Hoje invade “territórios abandonados” da Ibéria com barragens para engordar a capital e enceta novos alongamentos capitalista-socráticos no ultramar.

Pouco antes disso, publiquei um artigo para a revista Ecología Política, onde tocava na questão de Cahora Bassa estar a abastecer maioritariamente outros países, em particular a África do Sul. Sendo a África do Sul um país em crescimento económico, com um boom em 2010 ajudado pelo campeonato da THIEFA, é inevitável que a sua procura de energia aumente. E com ela os preços (para os moçambicanos, pelo menos).

Finalmente, a questão dos bens agrícolas. Não vou entrar em grandes detalhes sobre as políticas agrícolas do país, mas o que é certo é que já está engendrada a apropriação de milhões de hectares de terras, a distribuir entre os fanáticos dos eucaliptos (perdão, apóstolos da indústria papeleira nacional) e os messias dos agrocombustíveis. Curiosamente, foi hoje lançado um estudo dos Amigos da Terra (pdf da versão castelhana) sobre as políticas e consumo de biocombustíveis na Europa e a apropriação de terras em África. Moçambique aparece em grande destaque, com os investidores (empresas do Reino Unido, Itália, Alemanha, Portugal, Canadá e Ucrânia) a colocarem o seu objectivo em 4,8 milhões de hectares de cultivos energéticos. A jatrofa – também conhecida por batata-do-inferno devido à sua elevada toxicidade – é a rainha, detendo já 183 mil hectares.

É certo que a conjuntura internacional – embargo da Rússia às exportações de trigo e especulação sobre os seus preços – pode agravar os preços dos bens agrícolas em qualquer parte do mundo. Ainda assim, um país com menor soberania alimentar, a que não será alheia a aposta num modelo de exportação de bens agrícolas com elevado valor no mercado internacional, é naturalmente um país mais vulnerável.

A Moçambique não faltam recursos para evitar a subida de preços da água, electricidade, transportes (com o recurso aos seus cultivos energéticos) ou cereais. Contudo, as políticas centradas na exportação dos seus recursos, empobrecem o povo moçambicano. Contudo, é importante não esquecer que o país é um refém da sua (ilegítima) dívida externa e das reformas impostas pelo FMI e o Banco Mundial. Os tempos coloniais estão longe de ter acabado, mas felizmente os protestos também.

Andam por aí a tentar betonizar os nossos melhores solos Monday, 04 May, 2009

Foi recentemente lançada por um grupo de cidadãos uma petição em defesa da Reserva Agrícola Nacional. Hoje decidi dedicar-lhe um minuto para assinar e mais uns quantos para escrever este artigo. É que a Reserva Agrícola Nacional, ainda que com as suas limitações, tem sido um instrumento fundamental para preservar alguns dos melhores solos agrícolas do nosso país.

É bastante comum que os solos de boa qualidade se situem na periferia das grandes cidades. Em muitos casos, como o de Lisboa, foi precisamente a boa fertilidade dos solos em redor que permitiu um crescimento sólido da cidade. Infelizmente, as últimas décadas de suburbanização associada ao uso do automóvel privado e apoiada pelos poderosos lobbies da construção, levaram à betonização de alguns dos nossos melhores solos. Este é apenas o resultado natural de uma economia de mercado onde o betão vale mais do que o pão. Para agravar, no nosso país temos também uma poderosa indústria da pasta e do papel, que precisa de eucaliptos para alimentar o crescente consumo global de papel. Consumo este que, na sua maioria (cerca de dois terços do consumo total de papel), é literalmente desperdiçado em publicidade.

Sobre o novo regime da RAN, aprovado num processo que se afasta dos princípios democráticos elementares, a petição destaca como principais ameaças:

  • permitir a incondicional florestação dos solos agrícolas;
  • permitir excluir da RAN, àreas destinadas a habitação, actividades económicas, equipamentos e infra-estruturas, subalternizando a defesa dos poucos solos férteis do país a necessidades que podem ser colmatadas de outras formas;

Ou seja, basicamente é possível fazer tudo na RAN, desde que alguém tenha interesse nisso e seja capaz de provar que o seu negócio é mais importante do que cultivar batatas. Como a maioria dos nossos dirigentes parece ter a ideia que a comida é produzida nos supermercados ou através da manipulação genética da árvore das patacas, não será difícil ultrapassar as “limitações” do novo regime da RAN (muito menos para os amigos).

É urgente acabar com a crescente betonização e plantações industriais de árvores nos nossos melhores solos agrícolas. Em menos de 30 anos o país passou da produção de 80% das necessidades alimentares para menos de 50%. Nenhuma sociedade sobrevive sem alimentos e os alimentos não se produzem sem solo. A destruição da RAN pelas elites burocratas da cidade trilha mais um caminho a caminho do fim da nossa soberania alimentar.

Ainda há esperança, não só em petições, mas também em acções directas por parte de quem continua a trabalhar a terra. É o caso desta, nas Terras da Costa, terrenos de RAN, mas também de REN (Reserva Ecológica Nacional) que a Câmara Municipal de Almada e as Estradas de Portugal querem transformar em construções homogéneas (ou não tanto, pois apresentam duas cores mortas: castanho e cinzento) e auto-estradas para servir os passeios de fim-de-semana dos lisboetas (que, aliás, poderia ser servido com um sistema eficiente de transportes públicos centralizado no metro de superfície) e as insustentáveis deslocações pendulares dos habitantes dos condomínios privados da Aroeira e Verdizela.

Bom, mas para começar, vamos lá tod@s assinar.

Soberania alimentar