Vasco Graça Moura voltou a falar recentemente da acção de desobediência civil de Silves (ver artigo no DN de 3 de Setembro, “Insegurança e falta de cilindrada”). Com este artigo, a única coisa que Graça Moura veio demonstrar foi que se trata provavelmente de um dos colunistas com opiniões mais idiotas do nosso país (ok, admito que estou a ignorar a presença do Luis Delgado no top nacional das opiniões que enchem a nossa comunicação social de lixo). Se no ano passado tinha comparado a acção do Movimento Verde Eufémia com a criminalidade violenta no Porto, este ano não hesitou em ir inspirar-se nas mesmas águas para comparar uma acção política com a situação actual do país, que deixa os cidadãos “sob o signo torpe do crime mais desenfreado e da mais completa insegurança e intranquilidade pública”.
A aberração da lógica discursiva de Graça Moura começa com a comparação de uma acção política – independentemente da sua legalidade – com actos criminais de subsistência pessoal ou de origem mafiosa. A argumentação de Graça Moura pretende usar cada um destes casos para chegar à conclusão (que afirma estar demonstrada!) de que o Ministro da Administração Interna Rui Pereira se trata de um “zero à esquerda”.
Não quero dissertar sobre se Rui Pereira é ou não um bom Ministro. Em primeiro lugar, porque os serviços do MAI, a começar pelo SIS e a acabar na PJ estão certamente a investigar-me e, até ao seu desfecho, não posso proferir uma opinião sobre a sua eficácia (embora deva dizer que, à parte de algumas manifestações públicas e ruídos suspeitos no telemóvel, os paisanos não se fazem notar, o que é certamente um sinal de eficácia nos métodos!). Em segundo lugar, porque não me é possível consensualizar com Graça Moura os critérios para classificar uma boa actuação de um ministro responsável pelas forças da ordem. O discurso deste colunista não deixa margem para dúvidas de que o exemplo de um Ministro da Administração Interna é aquele que estabelece com eficácia um estado policial, capaz de salvaguardar toda e qualquer regra legalmente estabelecida. Não importa quem estabelece essas regras, assim como não importa quem sofre com elas. O que importa é que as forças da ordem têm que estar em todo o lado e reprimir qualquer desvio à lei – para que todos possamos viver seguros dentro da lei e a ordem que o estado (ou a plutocracia?) estabeleceram para todos nós.
Tudo se torna mais grave quando Vasco Graça Moura não hesita em classificar como aberrações medidas sociais de fundo, tais como o Rendimento Social de Inserção ou subsídios para a cultura. Admito que todas estas medidas possam ter as suas falhas e vulnerabilidades, mas não se pode querer que toda a gente viva feliz da vida e ao mesmo tempo acabar com as medidas de equidade e combate à exclusão numa sociedade. Torna-se assim claro que Graça Moura quer aumentar a lista de excluídos sociais, para depois, com a intervenção de forças policiais reforçadas e dispositivos de vídeo-vigilância em cada esquina, aumentar a população prisional portuguesa. O novo estado policial tem o duplo dividendo de eliminar também qualquer dissidência política. Todos esses terroristas que para aí andam a implicar com os transgénicos (e, já agora, todos aqueles que se opõe às dinâmicas do grande capital), bem podem ter cuidado, que o grande irmão comprou um novo par de óculos. Cada cidadão na sua trela, para uma coexistência pacífica sob o jugo do estado de direito.
Enfim, são opiniões como estas – e sobretudo o perigo que transportam para a sociedade pela sua projecção em toda a comunicação social (porque será?) – que me fazem lembrar como o Manifesto Anti-Dantas de Almada Negreiros poderia ser adaptado para os dias de hoje. Se Almada Negreiros se enojava com a forma como Júlio Dantas entretinha a populaça com historietas sem qualidade literária, a geração de hoje pode enojar-se com a ocupação das páginas dos jornais com artigos de opinião que tresandam a corporativismo económico.
Correndo o risco de ser acusado de difamação, mas com a salvaguarda de me recorrer a uma obra de um mestre da literatura portuguesa que, tanto quanto sei, não foi sujeito a nenhum processo por difamação (embora os tempos fossem outros!), lanço aqui a introdução a um Manifesto Anti-Graça Moura (não o maestro, mas sim o colunista) e por extenso (a todos os colunistas que enchem os jornais portugueses de vómito neoliberal).
MANIFESTO ANTI-GRAÇA MOURA
e por extenso a tod@s @s Graças Mouras que enchem os jornais portugueses de vómito neoliberal
Basta pum basta!!!
Uma geração que consente deixar-se representar por um Graça Moura é uma geração que nunca o foi. É um coio d’indigentes, d’indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!
Abaixo a geração!
Morra o Graça Moura, morra! Pim!
Uma geração com um Graça Moura a cavalo é um burro impotente!
Uma geração com um Graça Moura ao leme é uma canoa em seco!
O Graça Moura é um cigano!
O Graça Moura é meio cigano!
O Graça Moura saberá gramática, saberá sintaxe, saberá direito, saberá fazer ceias prós patrões da Monsanto, saberá tudo menos escrever artigos de opinião, que é a única coisa que ele faz!
O Graça Moura pesca tanto de política que até faz sonetos com Verde Eufémia, criminalidade e estado policial!
O Graça Moura é um habilidoso!
O Graça Moura veste-se mal!
O Graça Moura usa ceroulas de malha!
O Graça Moura especula e inocula os concubinos!
O Graça Moura é Graça Moura!
O Graça Moura é Vasco!
Morra o Graça Moura, morra! Pim!